Forró pé de serra teve médico e percussionista neste sábado

Fotos: José Dilson Pinheiro/euclidesdacunha.com
É cada vez maior a participação de músicos instrumentistas e vocalistas, alguns até são profissionais liberais, professores, servidores públicos, que fazem da música um instrumento de diversão, apenas, porém, são fãs do forró pé de serra autenticamente sertanejo nordestino cantado e tocado por Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Jackson do Pandeiro, Marinês, Anastácia, Trio Nordestino, Pedro Sertanejo, Trio Sabiá e tantos outros musicistas e compositores deste gênero musical que mexe profundamente com o sentimento de um povo marcado pelo sofrimento causado pela seca, abandono e exploração socioeconômica de espertalhões que não se cansam de cometer, contra essa gente trabalhadora, pau pra toda obra, que desde o século passado, ao som de sanfona concertina de 8 baixos, zabumba, triângulo, ganzá, se divertiam aos domingos e finais de semana, nos terreiros e nas salas de barro batido *“abufado”, luz de candeeiro, que até inspirou o rei Luiz a compor o clássico ‘Forró no Escuro’, indispensável em qualquer repertório de forró autêntico de raiz.
 
Cada vez mais castigado pela mídia comercial, aliás, sempre foi assim, pois já atentaram contra a sua vida por um sem número de vezes, e, quando pensam que ele morreu, eis que renasce igualzinho às árvores e plantas da caatinga, depois de longas e quase intermináveis secas, perfumando e embelezando o bioma único em todo o mundo, com suas flores simples ou exóticas; cheirinho bom ao amanhecer e ao entardecer, orvalhada pelo sereno da madrugada e atraindo para seus galhos e ninhos pássaros e aves diversos que juntos produzem, com seus cantos maviosos, lindas sinfonias num idioma que somente eles são capazes de entender cada trinado, cada solfejo, harmonicamente muito bem compostos, sem desafinar, que deixa o bicho homem, cada vez mais feroz e malvado para com esses bichinhos que só nos trazem alegria aos corações abrandados, alegres, felizes com a vida, até mesmo quando, por isso ou por aquilo, nos chateamos.
Com o forró pé de serra não tem sido diferente: pássaros, aves, animais silvestres são perseguidos e sofrem na caatinga, enquanto o forró pé de serra, que até tentam disfarça-lo com o vulgo de “universitário”, sofre com os “batidões e pancadões” eletrônicos, inimigos do zabumba, “Todynhos” e “Frutas” dos mais diversos formatos, abundantemente fartos, porém, de gostos e desgostos diferentes. Alguns até quase similares de bovinos leiteiros, muares propositadamente modificados em consultórios e clínicas especializadas, entre outros.
 
Mas, bom mesmo é quando a gente vê aos sábados, no Buteco do Dadá, uma galera formada por gente de todas as idades, classe social diferente, de tez branca, preta, morena, mameluco, índio, sarará crioulo, gente de fogo, bêbados dançando e ensaiando passos que inventam ali, na hora, de improviso, e tudo dá certinho que nem “boca de bode”, como diz o sertanejo nordestino, quando as coisas, as peças se encaixam bem..., ao som das sanfonas de mestre Cesário, que toca até frevo pernambucano sem deslizar os dedos para as teclas fora do compasso e dos 120 baixos parecendo “nego empareado”, - segundo Luiz Gonzaga, que se tornou expressão popular usada pelo rei do baião e do Nordeste, na música Respeita Januário, que se tivesse sido lançada nos dias atuais, certamente correria o risco de ser taxada de racista, discriminatória, etc., - deste gênero musical conterrâneo do forró pé de serra. 
Tudo isso sem falar nas feras Paulo do Acordeom, Romero Silva, Zé de Loura, Rato Branco, Barão, - que na fotografia aprece tocando zabumba ao lado do mestre Cezário e Jackson Oliveira -, Zé de Cirilo, Catarino Vilanova, que encantam quando abrem o fole de seus acordeons de sonorização agradável e bem afinados, além de convidados especiais acordeonistas vindos de outras cidades da região. Além de Vaninho San, outro jovem forrozeiro que tem se destacado entre os grandes sanfoneiros vocalistas de Euclides da Cunha e região.
 
Bons vocalistas, entre eles, Marcos Brito (Marcão da Faneob), idealizador deste movimento de resgate e vida eterna do forró pé de serra, além de excelente instrumentista e percussionista. Marcão, como também é conhecido no meio musical, compõe o grupo de forró ‘Forró do Cumbe’ - que tem Paulo do Acordeom, Toinho de Bina e Junior, como músicos -, Jackson Oliveira, um excelente percusionista multiinstrumentsita e vocalista, Ivan Silva, atualmente, o melhor cantor de forró de toda a região, Henrique do Acordeom, um pernambucano experiente que sabe puxar um fole de 120 baixos com muita leveza e categoria, forma uma dupla de forrozeiros de repertório eclético e músicas da melhor qualidade.
No Buteco do Dadá, que na verdade é um restaurante Fast Food de bons petiscos e cachacinha das boas, daquelas que não ardem na garganta, que muitos dos seus fregueses costumam intercalar com uma cervejinha de marca nacional ou internacional, e ficam mais alegres, inspirados e instados a convidar um cabrocha para uma dançadinha..., de repente aparece Rabelo Gonzaga (cover de Luiz Gonzaga), Rivelino Rocha, cantor e compositor euclidense de repertório bastante variado e bom, Gladival Silva, servidor público municipal, músico e cantor de repertório eclético, prof. Felipe Ferraz, enfim, muita gente boa que, às vezes,  tem levado o forró “inté o dia amanhecer”. 
São tantas as surpresas agradáveis que têm comparecido, que neste sábado (03), quem esteve lá para compartilhar esse bom momento de alegria e diversão musical, foi o médico Ariston Andrade, ex-prefeito de Monte Santo, ex-deputado estadual, proprietário de uma importante emissora de rádio da região, compadre de Luiz Gonzaga, além de grande incentivador da arte e da cultura musical sertaneja e exímio percussionista pandeirista.
Dr. Ariston parecia estar há muito tempo sem tocar o seu instrumento de percussão favorito; pois, pegou por volta das 17h e só largou quando já se aproximava das 22h. Para quem é do ramo musical e o conhece bem, não foi nenhuma novidade vê-lo tocar com forrozeiros e, como ele mesmo disse-me um dia: “gosto de bater pandeiro, da mesma forma como jegue gosta de milho”. Pelo jeito, matou a fome!  
O Bamba Fast Food é assim aos sábados: muito forró pé de serra, muita gente boa, muita alegria e preservação de nossa maior cultura musical nordestina. Parceiro deste projeto cultural interessante, o site euclidesdacunha.com faz a cobertura fotográfica com registro publicado em sua página Tô no Site, às quartas-feiras. Seja o próximo (a) a fazer parte deste álbum de registro cultural em Euclides da Cunha.

 

Publicado em: http://www.euclidesdacunha.comnews/print/id/2357