Andréia Barbalho – Jovem negra e baixa renda do povoado Muriti realiza sonho de exercer a advocacia

DE DOMÉSTICA A ADVOGADA: A HISTÓRIA DE UMA JOVEM NEGRA, POBRE, FILHA DE
PAIS ANALFABETOS, NATURAL DO POVOADO MURITI, ZONA RURAL DE EUCLIDES DA
CUNHA/BA.

Sou filha de pais analfabetos. Meu pai é lavrador e minha mãe é dona de casa. Minha
família possui um histórico de analfabetismo que vem se prolongando ao longo da
história.

Sou a primeira da família a concluir o ensino superior.
Eu sai de casa aos 13 anos para trabalhar como doméstica e babá fora do pequeno
povoado, recebendo o salário de R$ 80,00 por mês, muitas vezes pago com atraso.
Passei a morar nas casas em que trabalhava, com direito a uma folga a cada 15 dias, que
nem sempre era gozada, em razão dos eventos familiares que muitas vezes coincidiam
com o dia da minha folga.

Desde muito cedo percebi a dificuldade dos meus pais para sustentar a família composta
por 7 pessoas, quando soube da “oportunidade” de trabalho na cidade não pensei duas
vezes, era a minha chance de contribuir com a renda de casa.
Foi um período bastante difícil, a partir dali minha vida se transformou em um
verdadeiro inferno.

Hoje, conhecendo o conceito de trabalho escravo, costumo dizer que na verdade eu não
era empregada doméstica ou babá, o que eu vivenciei foi uma situação de trabalho
análogo ao de escravo.
Por sorte os patrões que tive ao longo na minha vida como doméstica e babá me
permitiam ir para a escola, com isso eu consegui concluir o ensino fundamental e médio
antes dos 18 anos.

Para ser aprovada nas provas do ensino médio muitas vezes estudava escondida no
banheiro ou aproveitava para estudar no período em que a patroa não estava em casa,
especialmente quando as provas eram de matemática, física e química.
Sempre fui muito estudiosa e uma devoradora de livros. Minha mãe, não entendendo a
importância da leitura chegou a retirar os livros do meu alcance para que eu fosse ajudar
nas tarefas de casa, isso aos 10 anos de idade.

Em um determinado momento da minha vida percebi que não haveria possibilidade
de crescimento pessoal e profissional dentro da minha cidade natal, então decidi partir
para São Paulo.
Foi em São Paulo que eu aprendi a SONHAR. Aprendi também que daqui para a frente
eu teria possibilidade de ocupar espaços diferentes daqueles que até então eu havia
ocupado.

A decisão de cursar Direito foi tomada durante uma aula no curso Técnico gratuito em
Administração de Empresas em que uma advogada negra ministrava brilhantemente
uma aula de Direito Constitucional.

Aquela mulher negra e advogada me inspirou de uma tal maneira que até hoje lembro
da entrada triunfal dela em sala de aula. Na hora eu pensei: “uau!!! que poder! eu quero
ser igual”. Aqui fica claro que representatividade importa sim, e muito.
Assim que finalizei o curso técnico me matriculei no curso de Direito, na época eu estava
desempregada. Não me preocupei em como pagaria as mensalidades, eu daria um jeito.
Não demorou muito para que eu arrumasse o meu primeiro estágio em um escritório
de advocacia. Durante um período neste primeiro estágio eu cuidava também da
limpeza do escritório, além de levar marmitas, assim eu conseguia aumentar minha
renda e dar conta de pagar as mensalidades da faculdade e todas as demais contas,
como aluguel, água, luz, etc.

Muitas pessoas próximas questionaram se eu não tinha vergonha de limpar o escritório.
A resposta sempre foi não. Penso que qualquer trabalho honesto que nos possibilite
continuar lutando para realizar nossos sonhos mais genuínos jamais será motivo de
vergonha.

Muitos conhecidos também duvidaram da minha capacidade de ser aprovada no temido
exame de OAB. Pois bem, fui aprovada ainda durante a graduação, sem fazer cursinhos.
Estudando de forma autodidata.

Hoje, tenho pleno conhecimento de que a linha de partida de mulheres pobres, negras
e, especialmente, as mulheres que vivem na zona rural do Nordeste, é completamente
diferente das mulheres brancas dos grandes centros.
Minha carreira como advogada está apenas começando.

Não é fácil. Nunca será fácil. Mas eu aprendi a seguir firme e sempre adiante, apesar dos
obstáculos.

Não quero que a minha história sirva base para o discurso de meritocracia.
Não é vantajoso ser a única nos espaços onde eu estiver.

Eu quero que sejamos muitas, e é por isso que eu estou desenvolvendo um projeto para
incentivar outras meninas da minha terra natal a sonhar e acreditar que podem ser
protagonistas da sua própria história. Além deste projeto, também tem livro no forno.


Andréia Barbalho

9 respostas para “Andréia Barbalho – Jovem negra e baixa renda do povoado Muriti realiza sonho de exercer a advocacia”

  1. Que orgulho senti em ler essa matéria!
    É inspirador saber que apesar das dificuldades ela venceu todos os obstáculos e que a chave para isso foi o conhecimento. Seu exemplo de superação ainda vai inspirar outros jovens a alcançarem seus sonhos.
    A representatividade é sempre importante, lugar de negro/mulher é onde ele quiser!!! Parabéns e que você tenha muito sucesso.

  2. Andreia é uma mulher inspiradora!
    Eu tive o prazer de conviver profissionalmente com ela, mas o melhor presente foi ter ganhado sua amizade.
    Sua trajetoria é exemplo de superação e motivação para qualquer pessoa que tenha força de vontade para vencer.
    Que o seu brilho ilumine outras mulheres e que ninguém ouse ofuscá-la.

  3. Uma trajetória brilhante, mas com enorme esforço e dedicação, nunca foi fácil e não seria diferente tornar este novo sonho em realidade, conheço toda a família e sei da dificuldade que o pai sempre teve para levar o alimento de cada dia, um trabalho árduo sem grande remuneração e reconhecimento algum , vc é um exemplo a ser seguido e aplaudido, ainda vivemos numa sociedade que tem a facilidade de julgar e a dificuldade de enaltecer a conquista do próximo, enraizada num preconceito velado, infelizmente!! Parabéns 👏🏻👏🏻

  4. Parabéns princesa estou em lágrimas em ler sua história .entre tantas lutas deus abriu caminhos que o levasse a ser o que tú é hoje.
    Quem mi falou de você foi minha subrinha ygrid Saad. daqui do povoado lage Euclides da cunha.
    Eu sou Cristiane matos sou agente comunitária de saúde e moro no povoado lage.onde no miriti tenho meus familiares . realmente aqui as chances são
    Poucas más deus ira abencoar sua vida .🥰

  5. Parabéns a você e a todas as mulheres que independente de qualquer coisa, supera todos os limites que lhe são impostos por uma sociedade aquém de equidade social.

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