Um bom livro e uma taça de vinho são companhias melhores do que muita gente

Já faz algumas semanas que não publico nada por aqui. Toda a composição social do momento aliada a um turbilhão de esfinges pessoais me levou a um estado de ócio. Normalmente o ócio me leva à criatividade, mas desta vez foi diferente. Não cheguei a um estado de inatividade ou desocupação mental, ao contrário minha mente nunca esteve tão ocupada e sobrecarregada. Os ansiosos, assim como eu, vão saber do que estou falando.

O fato é que nesse período descobri que estou envelhecendo e que com o passar do tempo estou ficando cada vez mais medrosa. Tudo tem me apavorado. O escuro noturno, a luz do poste que entra pela fresta do telhado, a mudança repentina no clima, os fogos de artifício, a multidão, o retorno à faculdade, o peso corporal, a carga de trabalho, o processo eleitoral, o filme de suspense, as baratas, as rãs que aparecem no vaso sanitário, pegar no sono sem orar, um relacionamento fracassado, a ideia de envelhecer sozinha. Esses medos que para alguns podem parecer bobos me fizeram ver que estou ficando velha para certas emoções e que eu não dou conta de tudo, você não vai dar conta de tudo, nós não damos conta de tudo e está tudo bem por isso.

Esse medley de medos e emoções me fez concluir que chega uma fase da vida em que não precisamos mais de autoafirmação. Não temos mais que provar pra ninguém de que somos capazes de fazer alguma coisa ou de deixar de fazer. Não precisamos mais fazer o mínimo de esforço para agradar. Não temos mais a necessidade de aceitação e também não precisamos aceitar qualquer coisa, qualquer programa, qualquer relação, qualquer trabalho, qualquer amizade.

Nesta fase o nosso nível de exigência aumenta copiosamente e isto é refletido em todos os espaços da nossa vida. Sair só vale a pena se a companhia for agradável, comer só se a comida for excepcional, conversar só se os interlocutores forem bons ouvidos, namorar só se valer muito a pena. Nesta etapa, a máxima do “antes só do que mal acompanhada” parece que nunca fez tanto sentido. E isso é ótimo, pois fica quem quer e vai embora que deve ir.

A pressa se torna desnecessária e não há mais razão alguma para nadar contra a maré do amanhã. Não há mais motivo algum para querer viver a vida em um dia nem tomar todas as cervejas em apenas uma noite.

De todos os medos que senti e sinto nestes últimos dias o que me parece menos necessário é o medo de envelhecer só. Não há problema nenhum em se tornar mais seletiva, reflexiva e cautelosa em se relacionar com alguém, isto não fará com que nos tornemos um monge budista que foi para montanha meditar e morrer. É preciso sentir os ventos, observar as ondas e molhar um pé de cada vez.

Embora ainda temerosa confesso que eu não temo mais amadurecer. Porque a maturidade nos faz ver que não se pode ter o controle de nada e de ninguém, senão de nós mesmos. Não há razão para atribuir ao outros culpa ou carregar uma culpa que não nos pertence. Estou mais leve e, ao mesmo tempo, mais forte. E é preciso aprender a se proteger da dor ao invés de apenas curar ferimentos. É essencial entender que perfeição não existe, e muito menos a felicidade eterna. E que não precisamos nos sujeitar a situações desconfortáveis, seja ela qual for.

Resolvi compartilhar essa situação, pois, é imprescindível que compreendamos que se algo nos incomoda ou nos traz situações de pavor e ansiedade ou de alguma maneira não nos deixa felizes é preferível que nos livremos da situação, nenhum de nós deve carregar fardos pesados demais nem para o corpo nem para a alma, tampouco para o espírito. Se não conseguir fazer isto sozinho (a), entregue nas mãos do Senhor e procure ajuda profissional.

Por fim, tenha sempre em mente que um bom livro e uma taça de vinho são companhias melhores do que muita gente.

Venha a mim todos que estão cansados e sobrecarregados e eu darei descanso a vocês.
Mateus 11:28

Juliana Maria
01.10.2020
#FiqueEmCasa

Juliana Maria é servidora pública, discente do curso de letras da Universidade do Estado da Bahia, nordestina de coração, alma e espírito, mãe solo, cristã protestante, Líder de Jovens da Primeira Igreja Batista em Euclides da Cunha e nas horas vagas “escrevinhadora.”

2 respostas para “Um bom livro e uma taça de vinho são companhias melhores do que muita gente”

  1. Excelente texto, mas EM TODAS AS SITUAÇÕES DA VIDA, SOMENTE DEUS BASTA! Na 2 Coríntios 3, 16 o Apóstolo Paulo traz uma reflexão muito profunda; principalmente no final do versículo: “À medida que o Espírito do Senhor trabalha dentro de nós, somos transformados com glória cada vez maior, e tornamo-nos mais e mais semelhantes a ele”. Paulo tem total razão e nesse período de trevas, os seus livros bíblicos têm sido para mim excelente companhia. O copo de vinho não! Por conta de Provérbios 23, 29 – 32.

  2. A propósito do “monge budista que foi para a montanha meditar e morrer”, lembro-me de ter lido um documentário sobre os BAKHTIARI, um povo nômade da antiga Pérsia que que costumava realizar uma peregrinação que durava 40 anos. Dessa forma, entravam pela África e atravessavam o Nilo. Entretanto, os mais idosos que já haviam feito aquele trajeto por muitas vezes e não mais conseguiam atravessar o Rio com as próprias forças, eram deixados em um bosque da margem fértil para aguardar a morte. Era uma questão cultural, portanto, não podiam ser ajudados a nadar pelos mais moços. Todavia, as caravanas de mercadores de outras etnias que passavam pelo Nilo ajudavam os que esperavam a morte com víveres e agasalhos.

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