Orgulho euclidense: Maria Clara Aquino lança livro primogênito “Ao caramujo um jeito esquerdo”

Falar para você leitor do euclidesdacunha.com sobre a obra literária de estreia de Maria Clara Aquino Damasceno não é somente exercer a tarefa do noticiar, é, principalmente, encher-se de todos os sinônimos que elencam a palavra orgulho enquanto pertencente de berço ao munícipio de Euclides da Cunha – BA.

Maria Clara, perdoe-me por não colocar o seu sobrenome nesse início de parágrafo, minha intenção é que dessa forma sintam-se perto de você antes de imergir na sua palavra intima, com a sua licença, farei a minha tentativa de te significar em um pequeno arranjo de frases. Quem conhece Maria Clara sabe que ela tem cheiro de poesia e seu local de pertencimento é a literatura, seus olhos são doces, profundos e feitos para olhar a vida e traspor os sentidos em uma conversa com o papel, seu semblante é gentil, o sorriso é como o sol brilhando ao meio-dia no sertão, tem corpo esguio e mãos hábeis para tecer as belezas do cotidiano e entrega-las, agora, embrulhadas em papel-seda vermelho. 

Por muito tempo as gavetas foram comportas de represa para a sua escrita, mas com o nascimento de Ao caramujo um jeito esquerdo fomos inundados da Aorta até a Cava que afunda o nosso peito em direção a coluna vertebral com palavras que são asa e também punho cerrado. Maria Clara possui excessos no plural da sua voz materializada nessa obra literária e já arranca na carreira de escritora de forma surpreendente, atingindo seus leitores com lâmina afiada que atravessa pensamento e arde tangível formando coágulos que imprimem questões, também nos faz respirar fundo e perder fôlegos. Embora a autora diga que não sabe como o poema começa ou termina, posso afirmar que começa nas calçadas de poeira ruiva da cidade de Euclides da Cunha e termina nas imensuráveis estantes do além-mundo.

 

AO CARAMUJO UM JEITO ESQUERDO: ENTREVISTA COM A AUTORA MARIA CLARA AQUINO DAMASCENO

O PERCURSO DO LIVRO

Boa parte dos poemas que compõem Ao caramujo um jeito esquerdo (Patuá, 2021) é uma reunião de escritos que datam dos últimos 10 anos, a outra parte é composta de escritos mais recentes, do começo de 2021 até um pouco antes da publicação do livro, em dezembro de 2021. O percurso do livro, de certa forma, acompanhou a formação da minha identidade literária e a busca de uma dicção própria. Eu escrevo poesia desde que posso me lembrar, mas, a pretensão de publicação nunca foi um fim, acabou sendo uma consequência natural. Embora, ao longo dos anos, eu tenha publicado, de modo avulso, alguns poemas em jornais e revistas especializados em literatura, além de ter participado de algumas antologias poéticas.

PROCESSO CRIATIVO

Eu sou muito imagética e atenta aos detalhes, acho que isso acaba aparecendo como um traço marcante na minha poesia. Na grande maioria das vezes, parto da observação de cenas cotidianas ou de insights que vêm da própria literatura, cinema, artes em geral para escrever. Obviamente, existe todo um trabalho em torno da linguagem, um jogo de mascaramentos, mas, não acredito, particularmente, que o texto literário – não anulando, com isso, sua dimensão (auto)ficcional, nasça apartado da experiência da autoria. Conscientemente, escrevo sobre o que me toca, sobre o que me motiva ou inquieta. Nesse sentido, o Caramujo, também, se presta, abertamente, às artes da memória e, em maior ou menor grau, a um tom autobiográfico em alguns de seus poemas. Neles não está toda a minha verdade ou a verdade pura das coisas ou dos eventos, mas, tal como em um vitral, é possível perceber os reflexos da experiência pessoal no jogo da representação.

Outro movimento curioso, que envolve toda uma mística (e que também ocorre com frequência), é não saber como um poema começa ou como ele termina, é a falta de controle do processo. A célebre frase de Pablo Picasso: “Eu não procuro, eu encontro” ou os versos de Ferreira Gullar: “é que só o que não se sabe é poesia / assim / o poeta inventa / o que dizer / e que só / ao dizê-lo vai saber / o que / precisava dizer […]” acabam ilustrando bem esse outro lado, o estado de inconsciência da criação literária ou da arte de modo geral.

DO QUE TRATA O LIVRO

Para Carola Saavedra, em O mundo desdobrável: ensaios para depois do fim (Relicário, 2021), “Escrever é dar nome ao silêncio”, e eu sou da mesma crença. Portanto, Ao caramujo um jeito esquerdo, é, também, uma tentativa de tornar os silêncios, seja em torno da natureza humana ou de uma metafísica existencial, verbalizáveis sob a minha própria percepção: o amor (o que vingou e aquele fracassou), a solidão, o desejo, memórias afetivas, o riso quase feliz, quase triste. Nesse sentido, os poemas não são monotemáticos, o que justifica, em boa medida, a divisão do livro em partes de um coração humano: Aorta, Ventrículo, Átrio direito, Átrio esquerdo, Cava [ou o coração estancado]. Existem diferentes tônicas, mas, um mesmo fio condutor. Por exemplo, em “Ventrículo”, uma seção com laivos políticos, reflito a condição feminina em meio ao patriarcado e ao machismo, movimentando uma linguagem mais transgressora e sem filtros. Em “Átrio direito” o eu lírico de alguns poemas perfaz as tramas do amor “marginalizado”, de onde o amor entre mulheres é mais representativo. Sem falar na última parte do livro que traz uma carga mais contemplativa, metafísico-existencial como são ilustrativos os poemas: “Prece”, “Esquinas”, “As omoplatas dos nadadores”.

SOBRE O TÍTULO DO LIVRO

O título, que não é óbvio, costuma deixar as pessoas intrigadas [Riso!]. A escolha do “Caramujo” está na ordem da delicadeza/fragilidade e é uma metáfora, também, para o próprio processo de criação do livro, um processo lento e laborioso; “jeito esquerdo” tanto pode remeter, como aspecto mais evidente, ao que está posicionado ao lado do coração (por isso, como disse antes, é o que justifica a divisão do livro), quanto ao esforço da criação literária, mesmo lento e laborioso, poder resultar, ainda, desastrado, um jeito esquerdo, como são os pés das pessoas que não sabem dançar, fazendo alusão à famosa expressão popular.

AFINIDADES ELETIVAS

Na prosa, o lirismo de Virginia Woolf sempre foi uma inspiração para mim, inclusive, há um trecho do romanceAo farol que transformei em epígrafe de um dos poemas, além dela, autores nacionais como Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles ocupam um lugar especial na minha estante (citando alguns para não citar todos). Na poesia: Ana Cristina Cesar (dedico o poema “Distância entre fendas” para ela); “a vida vidinha” encontrada nos poemas de Adélia Prado; a lucidez desconcertante de Orides Fontela; a poesia contemporânea da mineira Ana Martins Marques; o aparentemente comum, mas, sofisticado da polaca Wisława Szymborska;o sarcasmo inteligente e a irreverência da portuguesa Adília Lopes e da brasileira Angélica Freitas.  Enfim, a minha produção literária encontra um eco em todos os livros que ocupam espaço em minha estante, foram e são esses livros que ajudaram a formar meu caráter, meu gênio, além de entregar lentes sensíveis para enxergar e apreender o mundo.

SOBRE A AUTORA

Maria Clara Aquino Damasceno possui Licenciatura em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas (UNEB), é especialista em Educação, Contemporaneidade e Novas Tecnologias (UNIVASF) e mestranda em Estudos Literários (UEFS). Ao caramujo um jeito esquerdo é o seu primeiro livro de poesia.

Por: Mayana Xavier/Euclidesdacunha.com

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