Coluna: O preço do silêncio é o corpo da mulher: Quantas mortes ainda serão necessárias?

Quando o Estado falha, mulheres morrem. Todos os dias, horas, minutos e segundos.

Os números não mentem. O trágico aumento recente dos casos de feminicídio no Brasil, não é um desvio estatístico tampouco uma sucessão de tragédias isoladas, é resultado de uma sociedade que ainda naturaliza as hierarquias de gênero, ou que ainda insiste em tratar a mulher como objeto, aí emitir expressões com, por exemplo: “apanhou porque quis”; “por que não foi embora antes?”; “se continuou com ele, é porque gosta” – ignoram o ciclo da violência, a dependência emocional, o medo e a desigualdade de poder socioeconômico.

Quem nunca ao assistir uma reportagem ou ler uma notícia justamente sobre um caso de feminicídio, e acaba escutando expressões como: “ele perdeu a cabeça”; “foi excesso de ciúmes”; “um crime passional”, sem contar na humanização excessiva do agressor, omissão do histórico de violência, pois moldam a opinião pública e normalizam a violência.

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, entre janeiro e outubro de 2025, a capital paulista registrou 53 feminicídios,o maior número desde o inicio da série histórica, em 2018. Já no estado de São Paulo, somente neste ano cerca de 207 mulheres foram assassinadas. Na Bahia, 97 feminicídios foram registrads entre janeiro e 8 de dezembro de 2025. Salvador lidera a lista.

Cerca de 83 mil mulheres e meninas foram mortas no mundo. Destas, 60% foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares, que significa que, a cada 10 minutos, uma mulher ou menina é morta por alguém que dizia amá-lá.

Este cenáro remonta a tradição patriarcal que sustenta relações desiguais de poder, mantendo mulheres nas posições de subordinação. E vale lembrar que a violência se inicia no controle, seja na roupa ou o jeito de falar, na humilhação,na ameaça verbal, na violência física e por fim, a morte.

Tainara morreu as vésperas do Natal após ter tido as duas pernas amputadas depois de ser brutalmente atropelada e arrastada por um quilômetro. Isabele Gomes e seus quatro filhos morreram carbonizados em Recife após o ‘companheiro’ incendiar a própria casa. Histórias diferentes, mas não isoladas. Há algo perturbadoramente recorrentes nessas narrativas, me lembra a serié ‘Big Little Lies’, que desmonta a aparência das relações perfeitas para revelar a violência silenciosa que se esconde nos lares, a mulher perfeita, aquela que deve cuidar apenas do lar e da família, ou a mulher ideal, como assim classificam, aquela que não expõe muito seu corpo, me remonta até aquele perfil ‘café com seu pai’ (particularmente considero caótico e ridículo). Ou quando no feed, nos deparamos com os ‘redpill’, com a promessa de ‘despertar’ para uma suposta verdade sobre as relações de gênero , que reforçam a desumanização das mulheres, atacam o feminismo, e legitimam a ideia de controle masculino.

Gostaria de considerar que os fatores emocionais ainda mantém as mulheres presas ao ciclo da violência , uma ideia de amor que confunde posse com cuidado. Enquanto o feminicídio continuar sendo tratado como exceção, e não com consequência direta de uma estrutura desigual, continuarems coletando corpos. Para romper esses ciclos, é necessário educação, políticas publicas efetivas – que relmente saiam do papel – redes de apoio e sobretudo uma mudança na forma como a sociedade entende o lugar da mulher. Será que avançamos mesmo? Ou estamos regredindo aos poucos? As mortes dessas mulheres foram anunciadas, e ignoradas. Afinal, o que falar de uma sociedade que um chinelo é mais cancelado do que agressores e homens que matam mulheres?

Por: Cláudia Xavier

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Fonte: Portais G1, ONU Mulheres e Agência Brasil