Sifrá e Puá: Quando nós Cuidamos do outro, Deus Cuida de Nós

Quem de nós nunca se perguntou: -“Quem cuida de mim, quando eu cuido de todos?” Quantas vezes que nos pegamos pensando quando será a nossa vez de sermos cuidadas e cuidados? Cuidamos dos filhos, cuidamos dos amigos, cuidamos do trabalho, da casa, da igreja, da família, cuidamos, cuidamos e cuidamos…

Nos últimos dias em especial temos cuidado muito mais do que o habitual. Temos vivido dias difíceis e no final de cada um deles temos a sensação de que acabamos de lutar uma guerra. E nós que tantas vezes nos dedicamos a cuidar do outro, sentimos a necessidade urgente de ser cuidado, ser cuidada. Mantemos uma postura de força, criamos uma casca, vestimos uma armadura e ao fim do dia quando dela nos despimos estamos cheios de ferimentos da batalha diária. Nos lavamos e no outro dia colocamos novamente nossa armadura e vamos à luta. Mas quem cuida dos fortes?

Meditando nessa questão fui levada ao capítulo primeiro do livro de Êxodo, antigo testamento da Bíblia Sagrada.

O livro de Êxodo traz como foco principal a narrativa da libertação do povo hebreu, que naquele tempo estava escravizado no Egito, uma grande história de salvação. Quando pensamos nessa narrativa automaticamente trazemos a memória a figura de Moisés, escolhido por Deus para liderar o povo da saída do Egito até a terra prometida. Acostumados a essa narrativa, passamos pelo texto ou somos levados a conhecer apenas um protagonista da história e acabamos desconhecendo outros protagonistas tão importantes quanto Moisés para que o projeto de Deus para aquele povo se concretizasse. Duas dessas protagonistas são Sifrá e Puá cujos nomes significam respectivamente “beleza” e “esplendor”. Mas quem eram essas duas desconhecidas hebreias?

Sifrá e Puá eram parteiras. Sua função na sociedade da época era ajudar os filhos de outras mulheres a nascer. Pode parecer uma tarefa simples, mas visto a numerosa população hebreia, pressupõe-se que havia uma grande quantidade de crianças nascendo naquele tempo. Um trabalho bonito, porém arduo. Segundo o historiador Flávio Josefo (2004) um dos escribas de faraó disse ao rei que naquele mesmo tempo deveria nascer um menino entre os hebreus, cuja virtude seria admirada por todo o mundo, pois aumentaria a glória de sua nação e humilharia o Egito. Associado a essa profecia havia também o fato de que o povo hebreu embora tivesse passando por cruel escravidão, ao invés de diminuir, crescia muito em número. “Todavia, quanto mais eram oprimidos, mais numerosos se tornavam e mais se espalhavam. (Êxodo 1:12)”

Ora, esses fatores ameaçavam o poder de faraó, que de posse dessas informações convora as duas parteiras e lhes dá uma ordem: “Quando vocês ajudarem as hebréias a dar à luz, verifiquem se é menino. Se for, matem-no; se for menina, deixem-na viver. (Êxodo 1:16).”  O fato é que trabalhando diariamente em tempos e lugares nos quais a vida humana irrompe do ventre e entra para a história, Sifrá e Puá se recusam a obedecer a ordem de matar os recém-nascidos.

A ordem para matar vem do caráter anônimo e impessoal do privilégio e do poder.  Ao longo da história convencionou-se exterminar aquilo que consideramos  ameaça, em tempos atuais temos exterminado jovens negros, vitimas da falta de oportunidade, a população LGBTQ, Mulheres, entre outras minorias em nome de Deus, do Estado ou do que quer que seja, o que é nitidamente anti-bíblico e anti- cristão, visto que Jesus nos chama para prover vida por meio do arrependimento: “Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. (Lucas 15:7)”

Naquele contexto o desejo de promover vida vem de duas mulheres que vivem à margem da sociedade, mulheres da periferia, sem família, mulheres da base da pirâmide social, representantes dos oprimidos e impotentes que recebem destaque, sobretudo por sua coragem e obediência a Deus. Podemos enumerar uma serie de lições a aprender com essas duas mulheres, mas, ao momento cabe deseja destacar essas três:

  1. É MAIS IMPORTANTE OBEDECER A DEUS QUE AOS HOMENS

“Todavia, as parteiras temeram a Deus e não obedeceram às ordens do rei do Egito; deixaram viver os meninos.” (Êxodo 1:17)

Em tempos de mercadores do evangelho, falsos profetas e governantes sádicos precisamos estar atentos ao que dizem e pregam estes homens. Conhecer as escrituras e a vontade de Deus é imprescindível para isso. Se o seu líder religioso, ou seu governante exige de você qualquer tipo de atitude que venha a atentar contra a vida do outro, DESOBEDEÇA! O Deus a quem servimos tem como mandamento principal “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que este.” (Marcos 12:31) 

Quando eu amo o meu próximo, consequentemente amo a Deus, pois amor pressupõe cuidado. Quem ama não mata, não machuca, não maltrata, não viola, visita, alimenta, aquece, aceita, acolhe e inclui.

Sifrá e Puá sabiam disso. E de posse dessa preciosa informação cuidaram das mães e de seus filhos recém-nascidos, pois em seu íntimo elas tinham plena certeza que embora ele fosse faraó e elas lhe devessem obediência, ele não era Deus tampouco sua ordem provinha dele.

  1. A FÉ IMPLICA CORAGEM E OUSADIA

” Então o rei do Egito convocou as parteiras e lhes perguntou: “Por que vocês fizeram isso? Por que deixaram viver os meninos? “Responderam as parteiras do faraó: “As mulheres hebreias não são como as egípcias. São cheias de vigor e dão à luz antes de chegarem as parteiras”. (Êxodo 1:18,19)

Aquelas mulheres poderiam ter morrido por desobedecer a ordem de faraó. Elas não desobedeceram qualquer ordem. Era a ordem do governante mais poderoso daquele tempo, de um homem cruel e sanguinário e elas sabiam disso tanto quanto sabiam que sua morte era certa. Mas elas tiveram fé e fé implica coragem. Quando confrontadas pelo rei, as mulheres têm a ousadia de criar uma narrativa na tentativa de se defender. A fé e a coragem dessas mulheres são semelhantes às da Rainha Ester que certa de sua morte, resolveu ir ter com o rei na tentativa de salvar seu povo e a si mesma mas que antes de partir disse:” Depois disso irei ao rei, ainda que seja contra a lei. Se eu tiver que morrer, morrerei”. (Ester 4:16) e a fé de Daniel que a beira da fornalha não mostra temor “Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das suas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer”. (Daniel 3:17,18).

Tanto Ester e Daniel quanto Sifrá e Puá tinham uma certeza em seu coração: Quer vivendo ou morrendo, eles tinham feito a coisa certa e a coisa certa era cumprir a vontade de Deus.

A beira da morte, Sifrá e Puá demonstraram coragem e a certeza de que na vida ou na morte, o Deus a quem servimos jamais nos abandona. Se ele quiser nos curar ele cura, mas se não quiser está tudo bem, pois encontraremos cura nos céus “E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. (Apocalipse 21:4)

E por último mas não menos importante aprendemos que:

  1. QUANDO NÓS CUIDAMOS DO OUTRO, DEUS CUIDA DE NÓS.

“Visto que as parteiras temeram a Deus, ele concedeu-lhes que tivessem suas próprias famílias.” (Êxodo 1:21)

Enquanto Sifrá e Puá estavam ocupadas trazendo ao mundo os filhos de outras mulheres, auxiliando o crescimento de suas famílias, livrando os recém-nascidos da morte e evitando que suas mães chorassem sua perda, Deus estava o tempo todo cuidando delas.

Foi vontade de Deus que as duas vivessem, pois o Rei tinha todos os motivos para matá-las, mas ele não o fez. Deus lhes preservou a vida e ao final de toda a angústia passada por elas naqueles dias, lhes permitiu que tivessem suas próprias famílias. Sabemos o significado que isso tinha para uma mulher naquele tempo, ter filhos era uma benção e não tê-los era maldição. Deus as presenteou com aquilo que certamente elas mais desejavam em seu íntimo. Não há dúvidas de que é no cuidado com o outro e na demonstração de amor ao próximo que Deus cuida de nós.

Em toda a narrativa da salvação os papéis decisivos são desempenhados por pessoas como Sifrá e Puá. A obediência, a coragem e o cuidado de dessas mulheres surpreendem e ao mesmo tempo causam constrangimento. O rei do Egito, o governante mais poderoso da época, não tem sequer seu nome mencionado na narrativa. Mas o nome dessas duas desconhecidas hebreias escravizadas é revelado e, justamente por isso, elas deixam de ser desconhecidas. Deus as tira da margem para o centro: Sifrá e Puá. Nunca se esqueçam desses nomes.

E nunca se esqueça de que: É Deus quem Cuida de Nós!

#FiqueEmCasa

#UseMáscara

Juliana Maria

Juliana Maria é servidora pública, discente do curso de letras da Universidade do Estado da Bahia, nordestina de coração, alma e espírito, mãe solo, cristã protestante, Líder de Jovens da Primeira Igreja Batista em Euclides da Cunha e nas horas vagas “escrevinhadora”

 

 

2 respostas para “Sifrá e Puá: Quando nós Cuidamos do outro, Deus Cuida de Nós”

  1. Texto muito pertinente para os dias de hoje, que Deus continue te usando, a maneira como retratou o contexto bíblico em êxodo ao relatar Sifrá e Piá, nos leva a uma reflexão profunda da integridade moral para com o próximo e respeito a Deus que nos conduz em caminhos retos, parabéns Juli, cada vez te admiro em suas escritas.

  2. A PALAVRA DE DEUS TAMBÉM ELEVA A INSPIRAÇÃO HUMANA! Além das senhoras parteiras, uma criança tem um papel decisivo na preservação da vida de Moisés: Miriam, sua irmã mais velha. Ela segue o cesto de palha que desliza sobre o curso do Rio Nilo, levando o corpo do irmãozinho, até encontrar condições seguras para que ele seja cuidado, e ainda providencia para que a mãe biológica do menino o amamente até que ele atinja a idade ideal para ficar sob os cuidados da mãe adotiva. O texto é muito oportuno e a PALAVRA DE DEUS encantadora e instrutiva. DEUS nos ajude que passada essa era de trevas a população cristã de Euclides da Cunha – de todas as denominações sérias que têm compromisso com o Evangelho – encontre na PALAVRA DE DEUS a inspiração segura para reorientar a Vida em toda a sua Plenitude.

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