Juliana Maria: Menina Criança

Hoje não escrevi. Não tive condições. Só sinto dor. Dor-lembrança. Dor-ânsia, Dor-passado. Dor-dor. E eu de muito sentir, conviver e reviver a dor aprendi a fazer dela poema.

Menina-criança

Menina

De corpo pequenino

obrigada a ser de

quem lhe roubou

a infância

a boneca

a ilusão da vida

dividida

na miséria

do casebre

ou dos grandes casarões

ou da miséria

desavergonhada

de uma alminha pequena deturpada

de um algoz de corpo

de alma

com cara

com nome

e sem dignidade

Menina

de tantos traços e abraços

cabelos aloirados

negros,

pele inocente

boca sem dente

menina

tomada

em cada esquina

chamada abandono

menina preta, branca

caída de sono

menina rosa lilás

que não sabes nem saberás

porque ele

te escolheu

neste mundo de seu Deus.

Menina preta

branca azul

amarela e vermelha

a sociedade que te desagrega

é a mesma que se acovarda

na hora de te julgar

Culpada-Assassina

Pai,

Mãe,

Tio,

Primo

Menina-criança

Perdida na escuridão

É a menina que padece

É criança ferida no coração

 

Menina

Forçada a crescer

perdeu a meninice serena

pelas mãos covardes

de uma sociedade

falha

embebida em hipocrisia

que lhe força a conviver com essa lembrança

triste

que em dor pariste

ferindo em flecha

o pequeno  

coração

de menina.

Então disse Jesus: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”. (Mateus 19:4)

Juliana Maria

19.08.2020

#FiqueEmCasa

Juliana Maria é servidora pública, discente do curso de letras da Universidade do Estado da Bahia, nordestina de coração, alma e espírito, mãe solo, cristã protestante, Líder de Jovens da Primeira Igreja Batista em Euclides da Cunha e nas horas vagas “escrevinhadora”.

Uma resposta para “Juliana Maria: Menina Criança”

  1. Os teus primorosos versos, Juliana, refletem a trágica realidade histórica de tantas crianças vítimas das monstruosidades de seres humanos covardes e de um Estado de Direito, e de uma sociedade omissa perante as dores das crianças. Quando se lê relatos de mães pobres desesperadas que em razão de risco iminente de uma filha ou filho menores, empreende exaustivas peregrinações por órgãos públicos pedindo ajuda e o que encontra é descaso, desrespeito, omissão e até cumplicidade com os crimes de que as crianças são vítimas. Inclusive pedofilia. Um Estado de Direito eficiente justo, competente e comprometido com a Vida Humana elimina esses delitos nas suas raízes. Os teus versos fazem lembrar – e jamais poderemos esquecer – as barbáries hediondas perpetradas contra as crianças órfãs, chamadas jaguncinhos e jaguncinhas apreendidas pelas Forças do Governo na Guerra de Canudos; aí bem próximo do município de Euclides da Cunha. Muitas daquelas meninas, além de terem sido exploradas sexualmente, foram levadas pelos militares para outros estados da federação e transformadas em prostitutas.

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