Juliana Maria: Eu sempre quis ser professora

Minha Homenagem ao Dia do Professor

Eu não tenho lembrança nenhuma em que tenha desejado ser outra coisa. Lembro-me sim de quanto me encantei pela figura da professora. Lembro-me da sensação do abraço que a professora Rosangela me deu no meu primeiro dia de aula no EMEI Engenheiro Goulart ainda em São Paulo. Naquela época eu havia acabado de perder meu pai e minha mãe me deixava na escola para poder trabalhar. Lembro-me da temperatura do abraço, da mão macia enxugando minhas lágrimas, do cheirinho de xampu dos cabelos ruivos e encaracolados. Lembro-me do avental verde, das unhas sujas de tinta guache, do par de óculos redondos e dourados.

Em casa, eu a imitava. Eu queria ser como ela. Eu levava-lhe flores arrancadas das praças que ficavam no caminho da escola.  Aquela mulher linda, em todos os sentidos, foi a minha primeira inspiração.

Eu sempre quis ser professora.

Tornei-me auxiliar administrativa pelos acasos da vida. Mas ser professora foi e é meu sonho, por meta e, ouso dizer, por vocação.

Nesse caminho que venho trilhando tive e tenho inúmeras inspirações. Tive e tenho professores incríveis.

Como não lembrar com carinho de Pró Leidinha, a mulher que me ensinou a ler e a escrever? Como não lembrar Pró Iracilda Pereira, que com sua doce rigidez ensinou-me a trilhar com sucesso os caminhos da matemática, com que não tenho afinidade alguma?

Como esquecer Pró Wileide, que me apresentou os doces caminhos da literatura? Como não lembrar Professor Marcelo Pinheiro, meu professor e parceiro de “resenhas” e aventuras?

Como posso não ter saudades de professora Cleide Alecrim e Ilza Carla?

Não é pretensão minha romantizar a profissão com esse texto. Afinal, o Brasil é o primeiro no ranking global de agressão aos professores. É umas das profissões com a maior jornada de trabalho direta e indireta e também uma das menos valorizadas. Nos últimos dias a categoria vem sendo duramente cobrada e criticada durante a pandemia, por alunos, pais, governantes, donos de escolas.

As aulas remotas têm aumentado em até 82% as horas de trabalho dos professores, no entanto, a remuneração permanece a mesma. Alguns precisaram se afastar por problemas de saúde física e mental, que muitos consideram como “frescura”.

O fato é que vivemos num pais onde o professor só tem visibilidade quando está nas ruas, ou em greve lutando pro seus direitos ou quando morre queimada para salvar seus alunos, como fez a corajosa professora Helley. Ai vira herói ou heroína.

Ser professor está para além de dar aula. Porque dar aula é uma atividade, mas ser professor é muito mais do que isso. Ser professor é uma das formas mais genuínas do amor, pois não há como dissociar a educação do amor.

Porque professor vai além das tarefas estabelecidas em contrato, além das horas pagas no contracheque, além da ideia de que aquilo é apenas um meio para se ganhar a vida.

Professor precisa saber o nome, quer saber quem é quem, saber as histórias, os origens, os caminhos que seus alunos pretendem seguir.

Professor se envolve, mesmo quando tenta evitar.
Professor. Não está lá só para cumprir horário e currículo. Professor acaba por viver muitas vidas além da sua. Vivencia o crescimento, os obstáculos, as crises, os começos de namoro, as brigas entre amigos, problemas de casa, as angústias, os caminhos, os resfriados.

É verdade que ao longo de minha vida acadêmica eu não tive apenas bons professores como estes que citei anteriormente, tive e tenho também alguns  professores que estão na profissão apenas para ter um “salário no final do mês”.

Talvez eles já se encontrem num estado tão grande de saturação mental e tão desacreditados do sistema já desistiram de tentar fazer alguma coisa por si mesmo e pela educação, como diz Clovis de Barros Filhos, perderam o Brio.

Eu não quero me tornar esse tipo de professor. Não quero jamais perder meu brio e pretendo lutar até o último dia para não ser uma professora que marca negativamente a vida dos alunos. Quero ser para eles inspiração, exemplo. Quero deixar saudades em seus corações, para que um dia eles se lembrem de mim com afeto.

Que neste 15 de outubro atípico possamos colocar em prática todas as homenagens postadas e que tenhamos em mente que para chegar a  ser engenheiro, médico, historiador, veterinário ou para ter qualquer outra profissão é inevitável que passemos pelas mãos de um professor.

Por fim, é também imprescindível que olhemos o professor com respeito e que ensinemos aos nossos filhos, sobrinhos e amigos a também fazê-lo.

Feliz dia do Professor!

Meu respeito e minha admiração a cada um dos professores que passaram em minha vida e me fizeram parte do que sou hoje.

Instrua o homem sábio,

e ele será ainda mais sábio;

ensine o homem justo,

e ele aumentará o seu saber.

(Provérbios 9:9)

Juliana Maria

15.10.2020

#FiqueEmCasa

Juliana Maria é servidora pública, discente do curso de letras da Universidade do Estado da Bahia, nordestina de coração, alma e espírito, mãe solo, cristã protestante, Líder de Jovens da Primeira Igreja Batista em Euclides da Cunha e nas horas vagas “escrevinhadora.”

Uma resposta para “Juliana Maria: Eu sempre quis ser professora”

  1. Caríssima Juliana, tendo uma vocação sincera para o magistério, deves persistir. Porque a Educação tem necessidades dessas vocações.

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