Juliana Maria: E se fosse possível fotografar o nosso avesso?

Há alguns dias me deparei com essa pergunta no prefácio de um livro que li. A partir de então não foi mais possível para mim ter paz diante de tal questionamento. Verifiquei minhas redes sociais, vi inúmeras fotos postadas, milhares de curtidas, vi belos corpos, vi poses as quais salvei para poder usar a posteriori, vi imagens lindas de lugares que anseio conhecer. Passei um tempo precioso me deleitando com reels de cachoeiras exuberantes na Noruega, vi amigos e amigas suando a camisa em sua corrida matinal, vi outros trabalhando, vi lindos casais, animais fofos, postei uma foto e escrevi uma boa legenda. Vi retratos de vidas perfeitas, de pessoas bem resolvidas e em belas paisagens.

Muitas selfies! Ah, como gostamos de uma selfie! E quando conseguimos aquele enquadramento perfeito então… fica magnífica!

Uma das maravilhas que a tecnologia nos trouxe foi a democratização da fotografia, fácil acesso, fácil manuseio. Para fotografar, basta o celular! E nos fotografamos… e nos admiramos… e quando não sai a nosso gosto, tem sempre um recursozinho camarada para nos socorrer. Bingo!  Nosso “direito” está muito bem na foto.

Mas, e se fosse possível fotografar o nosso avesso?

Como estaria nosso enquadramento? Como seria o retrato do nosso interior sem filtros? O que essa foto revelaria? Haveria luz? Qual seria o cenário? Cuidamos da nossa estética interior tanto quanto cuidamos da exterior?

Temos vivido o que Hermes Fernandes chama de ditadura da imagem. Buscamos nos apresentar bem não nos importando muito com o que somos de verdade ou com o que sentimos. Buscamos aceitação a todo custo, ansiamos por aplausos, alguns até almejam ser invejados! Queremos ser referência de beleza, de força, de sucesso e nos esquecemos de ser referência em caráter e conduta. Usamos filtros que disfarçam nossos vícios, sentimentos e dores e com isso deixamos de ser vistos como seres humanos. A vida da “selfie perfeita” não suporta isso. Nela é preciso estar sempre bem, ter o melhor corpo, vestir as melhores roupas, ter um casamento dos sonhos, filhos saudáveis. Qualquer coisa que fuja disso é sinônimo de fraqueza e assim ninguém quererá a nossa vida.

Em nome da aparência vivemos reféns de relacionamentos falidos, temos diariamente inúmeras crises de ansiedade, nos enchemos de fórmulas para perder a barriga ou aumentar o bumbum, estouramos limites de cartões, temos noites e noites de insônia. Mas ninguém vê isso, pois tudo acontece quando estamos desconectados, em off.  Quando tomamos coragem para compartilhar essas situações em nossas publicações logo surgem pessoas para apontar, criticar, nos expor, deixar de nos seguir. São poucos os que são solidários e humanos nesses momentos.

Um outro ponto problemático nas redes é a divulgação e venda de fórmulas fáceis para o sucesso. Vendem fórmulas para emagrecimento, ganho de massa, dicas para uma vida conjugal plena, maneiras rápidas de enriquecer. Cápsulas, pós, pirâmides mágicas, cuja maior promessa é nos transformar em padrão. E nós adoecidos pela ditadura da imagem e influenciados pelo retrato de uma sociedade em que somos o que temos, compramos de maneira fácil essa ideias que só irão gerar em nós ainda mais frustração. É um círculo vicioso, infindo.

Voltemos a nossa pergunta inicial.

E se fosse possível fotografar o nosso avesso?

Quanto de nós mesmos ainda restaria dentro do nosso ser?

Precisamos tratar o nosso interior, tanto quanto ou ainda mais do que o exterior, resgatar o que ainda existe de nós mesmos. Deixar de lado a vida enganosa das aparências. As aparências podem enganar. No evangelho de Mateus, Jesus dá uma advertência aos fariseus e mestres da lei e os chama de “sepulcros caiados”. Ora lembremo-nos da imagem de um cemitério. Sepulturas suntuosas, em mármore Carrara, granito, porcelanato, branquinhas e bem planas, enfeitadas com flores, fotografias e materiais de brilho ofuscante. Belíssimas, de fato. Mas o que abrigam estes sepulcros? Isso mesmo, sepulturas são abrigam cadáveres em decomposição. As vezes é assim que nos encontramos. Por fora uma aparência impecável, mas por dentro estamos nos decompondo a cada dia.

Nem tudo é o que parece. Por isso, é importante ver o que está por dentro – o coração. Nosso valor não está na aparência física nem naquilo que as outras pessoas pensam de nós. Deus vê a nossa personalidade, aquilo que pensamos e fazemos, nossas motivações, desejos a maneira como vemos o outro, ele vê a nossa essência. Nisto está o nosso real valor.

A aparência de Jesus não era padrão. Ao contrário do que se convencionou crer ele não tem nada do modelo eurocêntrico a que fomos apresentados. Na cruz ele foi desfigurado mas revelou seu grande amor, que é maior que qualquer aparência. Jesus mostrou que o verdadeiro valor está no interior, não na aparência.

Portanto, não nos preocupemos com o ângulo exterior perfeito ou em sair bem na foto para agradar quem quer que seja. Se não estamos bem, precisamos cuidar de nós, procurar ajuda profissional, conversar com alguém de confiança, reestabelecer o nosso equilíbrio interior e exterior.

Quando nossa mente e espirito estão bem, nosso corpo responde na mesma sintonia.

E por fim que jamais nos esqueçamos de que para Deus, o nosso valor não está relacionado com a nossa imagem, nem com a quantidade de curtidas ou de seguidores que temos. Ele se importa com o nosso coração.

 

“O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração”.

1 Samuel 16:7b

 

Juliana Maria

 

Juliana Maria é servidora pública, discente do curso de letras da Universidade do Estado da Bahia, nordestina de coração, alma e espírito, mãe solo, cristã protestante, Líder de Jovens da Primeira Igreja Batista em Euclides da Cunha e nas horas vagas “escrevinhadora”

 

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