Entrincheirados – por Ilza Carla Reis

Entrincheirados

desde que nasci,
sangro meu ventre
onde pisou o Conselheiro
trilhas abertas, almas erguidas
chão conselheirista por direito

seguimos decalcando as pegadas
dum homem de vaidades desprovido
que trazia o corpo revestido
pela esperança-viva em Palavra

o estrondo de uma guerra não vencida
inda ressoa nas noites mudas do sertão,
mas não se cala as gentes deste chão
que não se quer e não se deixa esquecida

nos rastros empoeirados
do beato Antonio Conselheiro
nos vestimos da couraça da coragem
pra lutar contra os desmandos
de um desgoverno desumano
nas águas cheias ou rasas
do sertão virado em mar
mergulhamos corpo inteiro
pra estrada retomar
porque conselheiristas que somos
não há intenção de parar

o canhão da república
emborcou as chinelas
dos josés e das marias
antonios, bentinhos, josefas
mas seus ossos tornados cinzas
são hoje adubo nestas terras

pena que meu poema
não canta só um passado
porque há muitas emboscadas
contra meu povo cansado
mas como conselheiristas que somos
seguimos entrincheirados

 

Poema de autoria de Ilza Carla Reis em homenagem à data natalícia de Antônio Vicente Mendes Maciel (13/03/1830), mais conhecido como Antônio Conselheiro, um ícone da História do Brasil nas entrelinhas da Guerra de Canudos.

Ilza Carla Reis é poeta euclidense, professora universitária e mestra em Estudos Linguísticos.

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