Não leiam “Dicas de como melhorar a sua Saúde Mental”.

Olá, pessoal! Como estão vocês? Meu nome é Túlio Almeida, sou Psicólogo Clínico, Terapeuta Comunitário, levanto a bandeira da saúde mental há mais de 10 anos, compositor nas horas vagas, e estou muito contente em voltar a escrever para o site euclidesdacunha.com; um site de notícias de referência da região. Esse primeiro artigo marca o meu retorno como colunista; pretendo abordar em meus artigos questões importantes sobre saúde mental em uma perspectiva crítica, social, em uma linguagem simples e que consiga atingir o grande público. Espero poder contribuir com informações relevantes, clarear dúvidas e inquietações dos leitores e leitoras. Fiquem à vontade para sugerirem temas e assuntos para os próximos artigos! Esse espaço é nosso e podemos construir juntxs! Grande abraço!

Imagem: Reprodução Google

Recentemente eu fiz uma enquete nas redes sociais sobre quais seriam os
temas que os seguidores gostariam de ler nessa nova coluna de saúde mental do site
euclidesdacunha.com, uma forma que encontrei de gerar engajamento e tentar
dialogar com o público que acompanha as notícias no site citado acima. Nessa
enquete, observei uma quantidade significativa de pessoas que gostariam de algumas
“dicas de como melhorar a saúde mental” ou “dicas de como eliminar a ansiedade”.
Por um lado, é maravilhoso o interesse do público em querer investir na saúde mental,
nessa pandemia as pessoas tiveram que se reinventar, buscar estratégias de cuidado
diante do isolamento social provocado pelo Covid-19. Sim, as redes sociais são um
recurso extremamente útil na busca por informações sobre saúde e doenças, de modo
geral.

Mas por outro lado, é preciso muito cuidado ao lermos “dicas de como
melhorar a saúde mental”, sobre esse tipo de postagem a mais comum são as
postagens em formato de check list de “como eliminar a ansiedade”, se você
pesquisar, não será difícil encontrar algo assim: (1) faça caminhada (2) respire fundo
(3) tenha um hobby (4) tenha pensamentos positivos (5) organize seu dia, etc… e por aí
vai… Essas postagens estão presentes no Google, Instagram, Facebook, ou seja, está
acessível para o grande público, e posso dizer que essas dicas de Psicologia Fast Food
pode ter um efeito nocivo, já que aborda de forma superficial e pasteurizada questões
complexas sobre subjetividade humana.

“…dicas de Psicologia Fast Food pode ter um
efeito nocivo; já que aborda de forma superficial
e pasteurizada questões complexas sobre a
subjetividade humana”

Imagine uma mulher que esteja vivenciando violência doméstica ou um jovem negro
que esteja sendo vítima de racismo lendo essas dicas. Por que uma lista com dicas de
como melhorar a sua saúde mental, criada por uma pessoa que vivencia uma outra
realidade social, econômica e cultural poderia resolver o seu dilema existencial, que é
único e singular? As dicas fazem parecer que a superação é fácil, não é mesmo?
Bastaria só segui-las. Parece que depende exclusivamente de nós, mas não depende. A
sociedade capitalista, que se caracteriza também pelo alto desempenho e competição,
incute em nós que a responsabilidade é somente nossa, caso não consigamos alcançar
“o estado completo de bem estar físico, social e emocional”, assim como o sucesso
financeiro.

Percebo nesses dez anos de clínica, que as pessoas que atendo e acompanho
querem soluções rápidas para dilemas complexos. É muito importante lembrar que a
busca por soluções imediatistas é apenas reflexo de uma sociedade imediatista, que
cobra resultados rápidos. Sim, pessoas sofrem e querem deixar de sofrer porque
precisam trabalhar, ganhar dinheiro, pagar contas, cuidar dos filhos, em resumo,
precisam “estar bem”. Mas tenhamos cuidado com as dicas rápidas nas redes sociais,
existem muitos profissionais que prometem resultados mágicos e abusam da falta de
informações de muitos.

Melhorar a saúde mental é um processo complexo, precisa ser compreendido
como uma prioridade e que exige de nós uma continuidade, engajamento afetivo,
coragem de revermos nossas certezas e refletirmos sobre nossos vínculos. Não pense a
saúde mental apenas como um estado individual, que se faz necessário e urgente
cumprir uma lista de como melhorar a saúde mental, algo que dependa somente de
você, mas reflita a saúde mental como uma rede de relações na qual nós estamos
inseridos. Que tal acolher mais a sua história de vida, a história da sua família, a
história da sua comunidade, compreender o caos social e econômico que o Brasil e o
mundo se encontra (principalmente nessa pandemia). E não esqueça: está tudo bem
não estar bem. Estranho seria se estivéssemos sem inquietações, sem medos e
incertezas. O sofrimento faz parte da experiência humana. Precisamos mesmo é de
espaços para partilharmos as nossas “pedrinhas no sapato”, ter colo e ser colo, e assim
nos sentirmos apoiados em nossa trajetória. Na caminhada da vida, é melhor sermos
flexíveis com nossas limitações do que tentarmos ser fortes o tempo todo.

Túlio Almeida é Psicólogo Clínico (CRP-03/8824

Túlio Almeida é Psicólogo Clínico (CRP-03/8824) e escreve nessa Coluna de Saúde Mental.
IG do Instagram: @psicologo_tulioalmeida

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