Festa do Sítio 2019 teve alegria, homenagens, emoção e forró pé de serra

Em sua 17ª Edição, a festa junina que encerra os festejos em louvor aos santos festeiros, Santo Antônio, São João e São Pedro, os mais queridos do povo sertanejo nordestino, levou, talvez, o maior público a um arraial junino nesses 17 anos, realizado em plena caatinga do Sertão de Canudos, no Sítio Thomaz Vilanova, distante cerca de 38 km de Euclides da Cunha, no histórico Município reduto de homens e mulheres valentes, obedientes e fanáticos seguidores do beato Antônio Vicente Maciel, o popular “Bom Jesus Conselheiro”, que no século XVIII lutaram por liberdade religiosa, contra injustiças sociais e igualdade de direitos para um povo pobre e escravos alforriados e libertados pela Lei Áurea da princesa Isabel, onde o berro do bode e o barulho da ararinha azul se misturam ao final da tarde, quando o rebanho do animal símbolo dos sertanejos e a beleza da aves azuis, de asas longas, bicos resistentes que, em segundos, quebram o coquinho do ouricurizeiro para extrair a amêndoa que lhe dá energia e força para longos voos por todo esse bioma lindo e intrigante chamado caatinga, único em todo o mundo, cruzam o céu, nas primeiras horas da manhã em busca de alimento e, ao entardecer, em direção ao santuário e dormitório no inóspito e misterioso Raso da Catarina, enquanto bodes e cabras são enchiqueirados ao lado da casa, onde permanecem próximos aos seus proprietários, que das fêmeas tiram-lhes o precioso leite que vai servir para o fabrico de um delicioso e especialíssimo queijo, da inigualável coalhada, ambos servidos com rapadura, farinha de mandioca, carne assada, ovos, cuscuz, umbuzada, iguarias deliciosas, privilégio que somente o sertanejo desfruta.

É num cenário como esse, que o povo do sertão larga tudo para marcar presença no “Arraiá Aureliano Valério de Almeida”, justa homenagem ao genitor de Pedro Sertanejo, um trabalhador incansável, que faleceu depois de ultrapassar a casa de um século de vida, que levava com sua concertina de 8 baixos, o toque da sanfona às casas dos muitos amigos, nas salas de reboco, sob a luz de candeeiro, como cantou e encantou Luiz Gonzaga, Dominguinhos, entre tantos intérpretes da música intitulada ‘Forro no Escuro’, de autoria de Antônio Barros, uma sumidade na arte de compor letras de forró que marcaram época, juntamente com José Marcolino, Zé Dantas, Humberto Teixeira, entre outros.

Rodeado de serrotes, o Sítio Tomaz parece oferecer as condições ideais na geração de bons músicos, artistas que amam o lugar onde nasceram, tradicionalista e conservador de sua arte e cultura popular, autenticamente nordestinos de raiz, como bem explica o compositor pernambucano Rodrigues Lima, em sua música em parceria com Tio Joca, intitulada ‘Nordestino Eternamente’ que relata, entre outras coisas, o amor de quem nasceu em uma região onde a Lua brilha, o Sol é mais ardente, a chuva chega tarde, sou nordestino eternamente…” E é justamente lá, nesse cantinho do sertão baiano, assim como no agreste pernambucano de Rodrigues Lima, que há 17 anos, milhares de pessoas vindas de várias cidades, distritos, povoados, fazendas, e até de outros estados, se encontram num ambiente alegre, aconchegante, fraterno, animado com muito forró autenticamente pé de serra, sertanejo de raiz, do Trio Sabiá (Tio Joca, Lucas e Zito), Joquinha Almeida, Catarino & Forró Arrumadinho, com a participação do excelente e animadíssimo Jhonnus, nome artístico adotado pelo vocalista José Nunes.

Aluízio Cruz, ex-vocalista do Trio Sabiá, Jota Sobrinho, compositor, poeta cantador, ardoroso defensor do forró pé de serra, Baio do Acordeom, amigo e parceiro musical respeitado em toda a região de Feira de Santana; Antônio Rocha, Joquinha Gonzaga, outro veterano sobrinho de Luiz Gonzaga que com o seu jeito brejeiro traz para a festa do sítio a alegria do povo de Exu, terra natal do Gozagão, Rochedo, mestre Cesário do Acordeom, Ivan Silva, este, uma grata revelação do forró, Gradival, Danilo batera, mestre Cinquentinha 7 Cordas, Marcos Silva, outra grata revelação da música instrumental percussionista, Gê Santos, Toninho dos Teclados e Ivan Silva, este, um artista euclidense com alguns anos de carreira, mas que somente agora, começa ser reconhecido pelo grande público, pela qualidade artística, interpretação, carisma, humildade e profissionalismo. Ivan Silva é eclético, é o artista mais comentado do forró tradicional regional, na atualidade, que precisa ser visto com bons olhos por algum produtor musical conceituado.

Mas a festa do Sitio Tomaz Vilanova, nos últimos dois anos ganhou tem sido um local de grandes homenagens àqueles que contribuíram diretamente para manter o forró de raiz, autenticamente sertanejo nordestino, em evidência, apesar de quase toda uma mídia comprometida com outros gêneros musicais derivados do forró, ou forró genérico, mas sem o mesmo princípio ativo encontrado na formulação do gênero musical criado pelo seu genial inventor Luiz Lua de Santana Gonzaga, o Gonzagão, Rei do Baião.

O Sítio Tomaz é, queira ou não, o maior centro de manutenção, preservação, revelação artística de toda a região nordeste da Bahia. É lá, no meio da caatinga, que se ergue o grande arraial para festejos juninos, em meio à beleza de umbuzeiros, mandacarus, lindos cactos cabeça de frade, xique-xique de longos galhos como se fossem braços abertos, bromélias coloridas, refúgio e esconderijo de preás, nambus, teiús, caroá, pau de rato e catingueira com suas flores douradas que esparramam perfume pelo ar nas manhãs e finais da tarde, angicos, que ainda resistem ao processo de extinção, Ipês de flores com cores variadas, canto da seriema, que parece estar em processo de multiplicação, depois de quase completa extinção, ribaçãs, periquitinhos verdes de São José, maracanãs de cores verde e amarela, cágados, tatus, animais e aves com sérios riscos de extinção, impulsionado pela ganância, insensibilidade e pura crueldade de homens dotados de instinto destruidor da Mãe Natureza, que não aprenderam a admirar lindas e imponentes garças vaqueiras e ararinhas azuis que voam em bando ao nascer do sol e retornam para seus ninhos em voos posicionados milimetricamente, numa grande corrida aérea de revezamento, coordenado e guiado pelo astro-rei que anuncia o começo e o fim de mais um dia, deixando no céu a forma geométrica de uma asa delta, como um bumerangue que vai e volta.

Quem, pela primeira vez, foi à Festa do Sítio Tomaz, ficou encantado com a diversidade de pessoas de classe social e matizes diferentes que se divertem, dançam, interagem, namoram, bebem, comem, ao som da sanfona, zabumba e triângulo, e até de apresentações artísticas mais sofisticadas, de estilo moderno e arranjos diferentes sem, contudo, perder a essência do forró tradicional, como no excelente show instrumental de acordeom, guitarra em distorção, contrabaixo eletrônico e a tradicional e indispensável zabumba, nas execuções musicais de Joquinha Almeida, que apesar da pouca idade, faz do acordeom o que bem quer, como na música Assum Preto, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, gravada originalmente por Luiz Gonzaga e depois de alguns anos, de roupagem nova, com novos e revolucionários arranjos do primo e genial mestre Oswaldo Almeida e Silva, mais conhecido no mundo inteiro como Oswaldinho do Acordeom, que genialmente misturou arranjos de Acordeom Acústico, Acordeom Mindi, Guitarra e Baixo eletrônico, de uma música original com sanfona, triângulo e zabumba, com arranjos musicais do artista escocês Yngwie Malmsteen, um genial guitarrista, devidamente autorizado.

Joquinha Almeida manteve a essência da mistura de arranjos feitos por Oswaldinho, em seu CD Oswaldinho ao Vivo em Estúdio, com destaque para a música Assum Preto, mas Joquinha Almeida foi mais adiante na execução e ganhou o respeito da plateia que silenciou e parou de dançar para ver aquele jovem alto, fortão, cabelo cortado em estilo militar, de badana e boné, tênis Street cano médio vermelho, um tipo roqueiro heavey mental, mais para Axl Rose, personagem dissociado do tradicional forró pé de serra de raiz, autenticamente sertanejo nordestino. Joquinha Almeida foi, indubitavelmente, a grande atração artística da Festa do Sitio 2019.

Nesse majestoso evento cultural de músicas e sons tradicionais do Nordeste Brasileiro, teve também momento de homenagens, sentimento e dor revividos na lembrança de Marcos Brito e companheiros que partiram com ele no longo voo da saudade, numa manhã tenebrosa de novembro de 2018. Marcão, como era chamado carinhosamente pelos seus amigos do meio musical e colegas da Fanfarra do Educandário Oliveira Brito (Faneob), que de um pequeno grupo de jovens percussionistas foi transformado numa banda de fanfarra que conquistou quatro títulos de “Melhor do Estado da Bahia”, em disputas acirradas com as melhores bandas de fanfarra da capital baiana e cidades com histórico de tradicionais em campeonatos da modalidade, como Feira de Santana, Camaçari, São Francisco do Conde, Cachoeira, Santo Amaro da Purificação, Alagoinhas, entre outros.

Por último, Marcão conquistou para a Faneob, o direito de participar de campeonatos e competições em nível nacional e fez trabalhos de ressocialização com jovens em situação de risco para eles e para a sociedade, ensinando-lhes a arte de tocar um instrumento musical e boa convivência em sociedade, com disciplina e respeito.

No palco do Sítio, a família de Marcão foi chamada para receber a justa homenagem que Juracy Vilanova e sua esposa Laiane, idealizadores e produtores desta festa, da qual Marcão participou por vários anos, tocando zabumba e cantando como vocalista principal do grupo Catarino & Forró Arrumadinho, excelente na execução de forró pé de serra tradicional. A emoção tomou conta de todos, e aumentou o sentimento de saudade quando Marlos, um garotinho filho de Marcão, foi convidado pelo vocalista Jhonnus para cantar em homenagem ao saudoso pai, a quem tanto amava.

O arraial silenciou para ouvir Marlos cantar acompanhado de excelentes músicos e sem ensaio prévio, e retribuiu com aplausos aquele momento ímpar que aquela festa mais que linda, lindíssima, prestava com muita justeza, a um dos maiores músicos forrozeiros, percussionista, zabumbeiro, trianguista, vocalista fã de Luiz Gonzaga e Dominguinhos, que adotou o chapéu de couro, símbolo do vaqueiro nordestino, como peça de indumentária do grupo Forró do Cumbe, que ele havia criado juntamente com os amigos Paulo do Acordeom e Toínho de Bina. Foi, lindo, muito lindo, foi espetacular! Como espetacular foi, a ideia de Jura Vilanova, compartilhada com Tio Joca e Laiane, de homenagear a Pedro Sertanejo, na Festa do Sítio 2018.

Passava das 07h, quando Toninho dos Teclados, um músico euclidense bastante conceituado e um dos primeiros a animar a festa do Sítio Tomaz, em sua fase inicial, também única exceção permitida pela organização da festa a se apresentar com um gênero musical diferente do forró pé de serra; porém, com um repertório de músicas pop que o povão adora, muito própria para um final de festa, quando a galera já tomou todas, a saudade está batendo, a paixão, a dor de cotovelo também, além de o som da “pisadinha”, – ritmo criado por Nelson Nascimento, um sertanejo de Monte Santo, cidade pertinho do Sítio Tomaz, – que a turma não fica parada quando a banda toca.

O céu nublado, o sol tentando furar as nuvens para sair, um pouco de frio para quem não estava gandaiando, ou o efeito da “branquinha” já estava passando, muitos bêbados circulando, mulheres de sapatos e sandálias nas mãos para aliviar o calo que o calçado, sandália ou bota novas lhes deixou no calcanhar, mas não deram o gosto de tirá-los dos pés, num capricho de mulher alimentado pela vaidade feminina. A despedida de Jura Vilanova com agradecimentos gerais pelo sucesso da festa, e muitas fotos com os foliões, que certamente estarão expostas no mural do sítio, em 2020, como lembrança da melhor festa junina do sertão baiano, que começou por volta das 18h de sábado e terminou domingo 08h30, com a galera forrozeira pedindo mais. Foi excelente, linda, maravilhosa, foi bacana, foi legal, uma festa que jamais será esquecida.

Valeu Trio Sabiá, Joquinha Almeida, Aluízio Cruz, Joquinha Gonzaga, Jota Sobrinho, Baio do Acordeom, Catarino, Jhonnus & Forró Arrumadinho, Ivan Silva, mestre Cesário do Acordeom, Antônio Rocha, Gê Santos, Toninho dos Teclados, Faneob, Família Marcos Brito; Sonorização Santana, Mídias (rádios e sites) Canudos, Euclides da Cunha, Monte Santo, Uauá; seguranças particulares, Polícia Militar, parceiros patrocinadores, valeu, Jura Vilanova e Laiane, vocês fizeram a melhor festa dos últimos anos, para cerca de quatro mil foliões.

Louve-se a iniciativa dos irmãos Juracy e Catarino Vilanova, com a colaboração de Laiane, esposa de Jura Vilanova, do primo Tio Joca, do produtor de eventos Aderbal Santos (Mega Evento), que não medem esforços para realização de um evento que completou 17 anos, que conta com ajuda de alguns colaboradores parceiros, inclusive músicos, que enaltece e eleva o nome do Município onde se realiza; porém, não tem deste, por meio das autoridades governantes, o merecido apoio logístico e cultural, apesar de toda publicidade que é dada ao Município, bem maior que uma cavalgada, um passeio a cavalo patrocinado com recursos do tesouro municipal, que não retribuiu ao município, o marketing fortíssimo que a festa do sítio oferece em contrapartida, mesmo não estando inserida no calendário de festas populares do lugar. A Festa do Sítio Tomaz é real, é cultural, é tradição, é merecedora de maior atenção do Município.

 

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